segunda-feira, 17 de junho de 2013

Sobre o Silêncio escolhido



Sobre o que não se pode falar, deve-se calar. Ludwig Wittgenstein

Não deis aos cães as coisas santas, nem deiteis aos porcos as vossas pérolas, não aconteça que as pisem com os pés e, voltando-se, vos despedacem. Mateus 7:6

(...) pois há certas coisas, e entre elas especialmente os segredos da interioridade, que perdem ao serem publicadas, e que se perdem completamente quando a publicidade se torna para alguém o que há de mais importante, sim, há segredos que em tal caso não apenas se perdem mas até se tornam algo sem sentido. Kierkegaard



Portanto, quando eu escolher o silêncio, respeite a minha posição, ou imaginas que todos saem por aí mostrando os tesouros que escondem em cofres protegidos? O máximo que lhe darei é o mapa desse tesouro e então, se tiveres um pouco de dedicação e perseverança, encontras o que não deve ser compartilhado em palavras, o que não deve ser mencionado em conversas de "mesas", aquilo que em segredo deve ser valorizado para que não se torne coisa vã,  ou trivialidades nas mãos e na boca de? -  de quem mesmo? De quem ama o falar e o mostrar mais do que o pensar e o sentir, em silêncio, em solidão.



17/06/2013 13:57h

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Vida, uma avalanche de estímulos (Título Roubado)

Como tenho passado? 

Que pergunta sugestiva...Acho que não tenho passado, antes, o mundo passa por mim. Como aquela folhinha pequena que se gruda no asfalto depois de uma longa chuva, insiste em ficar ali, mesmo que carros, ventos, outras águas ou até mesmo uma senhorinha insistente com mania de limpeza a bravejar - "Folhinha mais sem rumo, insiste em se prender no chão". Não, eu não saio, não, eu não me levanto, daqui vejo com orgulho o mundo passar - e que passe, que voe, que ande, que corra, que se afunde, que me esqueça, eu serei apenas uma folhinha, hoje verde e inteira, amanhã seca e moída, desintegrada - parte do mundo, parte desse moinho.
Não seria mais fácil dizer apenas, passo muito bem, querida, (...) ? Não seria?
04/06/2013 - 23:15h

segunda-feira, 3 de junho de 2013

"O vermelho anoiteceu"

Desenho de Karina M. Silva

No outro dia, quando estivemos juntas, você insistiu para saber o que se passava - para que em meus olhos refletisse algo submerso na alma.
Não respondi, puro medo e receio. É tão mais simples nos mostrarmos rasos e simples, na verdade, penso que a maioria das pessoas tem preguiça das relações, conversas e vidas profundas. Dói despir a alma, tirar do calabouço impressões que saltam a face à ruborizar.
Ando tão cansada das rugas da minha caminhada, e que grande ironia, hoje, necessitava jogar fora os entulhos, as poeiras dessa "sala"; Eu não sei fazer isso, se não pela palavra. A ironia é, eu não queria lhe mostrar essa "sala", mas já descobri que, da minha mente, saltam palavras e correm ao teu encontro; Preciso limpar a "sala", as minhas trabalhadoras só se levantam quando sabem que se encaminharam a seus olhos. Desculpe lhe entregar esses entulhos, mas é necessário. Não repare a confusão, a escuridão e falta de delicadeza dessa "sala". Queria que voce fosse uma visita que entrasse em minha casa para conhecer o que as visitas conhecem, chás, conversas e um volte sempre, no entanto, abro as portas com meus móveis empoeirados - entre, não sente, há confusão, ha choro, há muita vergonha e dor, levante-se, eu sei que não voltará mais, a casa precisa ser limpa e a "sala demolida".
Há o que dizer, mas me faltam palavras, quer saber o que se fez do que fui?
O poeta dirá, para quem um dia cultivar interesse: Versos recolhidos.
"(...) Parte-se em mim qualquer coisa. O vermelho anoiteceu.
Senti demais para poder continuar a sentir.
Esgotou-se a alma, ficou só um eco dentro de mim.
(...) Tiram-me um pouco as mãos dos olhos os meus sonhos.
Dentro de mim há só um vácuo, um deserto, um mar noturno.
E logo que sinto que há um mar noturno dentro de mim,
Sobe dos longes dele, nasce do seu silêncio, outra vez, outra vez, o vasto grito antiquíssimo De repente como um relâmpago de som, que não faz barulho, mas ternura.
(...) O meu passado ressurge, como se esse grito marítimo
Fosse um aroma, uma voz, o eco duma canção
Que fosse chamar o meu passado
Por aquela felicidade que nunca mais tornarei a ter.
(...) Ah, como pude eu pensar, sonhar aquelas coisas?
Que longe estou do que fui há uns momentos!
Histeria das sensações - ora estas, ora as opostas!
(...) Mas tudo isto foi o Passado, lanterna a uma esquina de rua velha,
Pensar nisto faz frio, faz fome duma coisa que se não pode obter.
Dá-me não sei que remorso absurdo pensar nisto.
Oh turbilhão lento de sensações desencontradas!
Vertigem tênue de confusas coisas na alma!
Fúrias partidas. (...) Grandes desabamentos de imaginação sobre os olhos dos sentidos, Lágrimas, lágrimas inúteis,
Leves brisas de contradição roçando pela face a alma...(...) - Álvaro de Campos (F.P)
Há uma canção mal traçada dentro de mim (...) No silencio comovido da minha alma. F.P

Maio de 2013.