segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Carta póstuma de Elisa


“Em tuas cartas, que agora recordo com tão viva lembrança, me amavas tanto, me adoravas, me engrandecias. Vias em mim sensibilidades que eu mesma não suspeitava. E mais: induzias-me, quase me imploravas, para que eu fosse feliz, apesar da tua ausência.
Através da distancia me sublimavas.
Pelas cartas, o nosso amor era um tão grande amor!
- ...talvez, mesmo então, por minha natureza esquiva, eu não tivesse sabido me corresponder com expansivo amor ao amor que transbordava de tuas cartas, e também por isso eu me penitencio.
No entanto, eu te amava, e como!
E sempre me pedia que te escrevesse mais, queria saber das mínimas minúcias do meu cotidiano viver.
- ... é mais uma razão para a principio eu não ter entendido nem me conformado com o nosso gradual distanciamento mutuo quando retornaste da viagem, e em revide me haver retraído.”


Não tinha a intenção de escrever esse texto, principalmente porque mesmo antes de colocá-lo em linhas já o imaginei com ar de Crônica, gênero que me irrita deveras; sempre tão suave, tão transparente, me incomoda ser vista.
Contudo, por falta de subsidio poético, me obriguei a fazer esses insignificantes comentários a respeito das impressões que o texto acima me causou.
Laís, minha grande amiga, me presenteou com a biografia de Clarice Lispector, escrita por Benjamin Moser, o livro é todo sentimento, dor, sangue e alma de uma grande escritora. No entanto, lá pelas paginas 410 algo que não veio das mãos de Clarice (não diretamente) me paralisou – O texto acima é citado no Livro biográfico de Monser, trata-se de uma carta escrita pela irmã de Lispector, Elisa, em seu livro Corpo a Corpo. Benjamin Monser afirma que esse livro é um acerto de contas entre as irmãs, contudo, foi escrito pós-morte de Clarice e tinha como objetivo maior destacar a admiração e o amor que existiu entre as duas.
Porem, não foi só esse texto que me obrigou a escrever essas linhas insignificantes, na verdade já tinha até desistido de insistir com as palavras. No entanto, um querido amigo me deu o privilegio de ler uma carta intima que recebeu de seu grande amor, fiquei a flor da pele, com a licença que ele com certeza me daria (se eu pedisse), transcrevo um pequeno trecho: “Se nos encontrarmos em mil vidas, em apenas uma delas, por favor... segure a minha mão”.
Caramba! As pessoas deveriam saber que eu sou uma ferida aberta, li a carta de Elisa e parte da Carta do meu querido e me debulhei em lagrimas, logo, alguém tinha que pagar por tanta emoção.
Mas, eu não fiz esse rodeio todo para contar como sou sensível a histórias de amor.  O que me intrigou na carta de Elisa e também na do meu querido amigo foi o momento que elas foram escritas, cartas póstumas. Elisa escreveu uma carta belíssima para Clarice, mas, isso foi só para que “manteigas derretidas” como eu se deliciassem com um pouco de seu “mel”? Ou para amenizar a sua dor? Elisa amava profundamente sua irmã, mas só conseguiu expressar esse amor em uma carta pós-morte. Parece-me que os sentimentos mais profundos são guardados, fechados e muitas vezes impedidos de aflorar em nós, seres vaidosos.
Há tanta dor, arrependimento e reconhecimento nas palavras de Elisa que chega a ser torturante saber que Clarice nunca soube dessas palavras (é claro que exagero nessa colocação, não há como saber efetivamente se Elisa nunca declarou isso para Clarice).
Somos seres até que engraçados, deixamos que a morte nos prove um grande amor, deixamos um amor passar por medo ou vergonha da vulnerabilidade, odeio esse “tom” de palavras que irei usar agora, mas já que estou na “onda crônica” de um texto insignificante lá vai, - Ouse amar, ouse dizer que ama, ouse mostrar esse amor, ouse deixar ser amado, ouse escrever uma carta, que não seja póstuma!

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Prefácio de um texto que não será escrito:

By Camila do Rosário


PRÓXIMO DEMAIS. Se vivemos próximos demais a uma pessoa, é como se repetidamente tocássemos uma boa gravura com os dedos nus: um dia teremos nas mãos um sujo pedaço de papel, e nada, além disso. Também a alma de uma pessoa, ao ser continuamente tocada, acaba se desgastando; ao menos assim ela nos parece afinal – nós nunca mais vemos seu desenho e sua beleza originais. – Sempre se perde no relacionamento íntimo demais com mulheres e amigos; às vezes se perde a pérola de sua própria vida. (Nietzsche)
Caríssima, peço que não se sinta constrangida a responder esse texto, ou melhor, lhe incentivo a não ler as linhas que virão em seguida, são anedotas misturadas com o horror da percepção. Pois bem, caso tenha contrariado minha sugestão e já esteja acompanhando o desenrolar dessas linhas, imagino sua decepção a cada palavra mastigada, qual é o gosto? O cheiro? Que sensação lhe causam minhas letras? Caríssima, imagino que já tenha desistido de continuar, porém, é quase impossível parar de desenhar essas ideias - sabendo que seus olhos escorregam por minhas metáforas; Por isso, novamente irei aconselhar algo pratico para tirarmos de seus ombros o peso do meu fetiche – Use sua admirável capacidade de brincar com eufemismos, transforme essas rudes palavras em pensamentos efêmeros – Então eu ajudarei nesse desligamento, darei um ponto final nesse fascínio, me esforçarei para arrancar de minhas “trabalhadoras” o desejo de seguir, tocar, roubar e desenhar a áurea que lhe envolve. Sejamos sinceros - quão enfadonho é vestir a alma repetidas vezes; Quão vergonho é se ver nu, ser tocado nu, ser nu, ser no outro o apelo à nudez. Oh Caríssima, que abafado que se tornou essa Fabrica de Palavras, visualizo nesse instante, milhões de trabalhadoras correndo e se movendo sem rumo, eu sei o motivo – começo a arrancar delas a imagem da Interlocutora. Aqui de cima, as vejo em desespero, a visão que tenho é de que elas perderam o desejo de trabalhar, nunca mais se organizarão, nunca mais terão o nexo necessário para avançarem para fora dessas paredes, não deveria ser assim, porém, eu preciso que elas parem de se dirigirem a uma única senhora, preciso que elas obedeçam somente as minhas ordens, preciso que elas voltem a serem minhas. É sua culpa, senhora. Nunca paguei minhas trabalhadoras e nem as tratei com carinho, por isso, elas nunca vieram até mim com flores ou perfumes. Agora vejo nelas tanto desejo de te seguir que sinto ciúmes e inveja. Uma medíocre vaidade, eu sei - não é necessário jogar em face. O que arremeto com indignação é que agora eles sobem em cordas, se atiram em direção a IMAGEM retirada, gritam alto como se quisessem ir e não mais voltar. Que desejo mais sem pudor esse, não? As palavras jogadas e prostradas ante uma alma misteriosa – o meu ultimo conselho, Caríssima, afasta-se, afasta-se, antes que essas palavras lhe alcance, antes que novamente “elas” consigam arrancar as vestes – não poderia imaginar o que aconteceria, se lhe despindo, escondessem os panos que a cobrem. A sua nudez causaria nelas um fluxo de criação impossível de conter. Enfim, não posso perder minhas “pérolas trabalhadoras” e nem você, imagino, gostaria de ser tocada repetidas vezes e aclamada repetidas vezes por meras linhas mal escritas. Se esse texto não fosse um texto que não será escrito, eu lhe contaria como é o horror da percepção. Porém, quem gostaria de contemplar uma ferida aberta? 

Que sensação lhe causam minhas letras?

Agosto de 2013

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Sobre o Silêncio escolhido



Sobre o que não se pode falar, deve-se calar. Ludwig Wittgenstein

Não deis aos cães as coisas santas, nem deiteis aos porcos as vossas pérolas, não aconteça que as pisem com os pés e, voltando-se, vos despedacem. Mateus 7:6

(...) pois há certas coisas, e entre elas especialmente os segredos da interioridade, que perdem ao serem publicadas, e que se perdem completamente quando a publicidade se torna para alguém o que há de mais importante, sim, há segredos que em tal caso não apenas se perdem mas até se tornam algo sem sentido. Kierkegaard



Portanto, quando eu escolher o silêncio, respeite a minha posição, ou imaginas que todos saem por aí mostrando os tesouros que escondem em cofres protegidos? O máximo que lhe darei é o mapa desse tesouro e então, se tiveres um pouco de dedicação e perseverança, encontras o que não deve ser compartilhado em palavras, o que não deve ser mencionado em conversas de "mesas", aquilo que em segredo deve ser valorizado para que não se torne coisa vã,  ou trivialidades nas mãos e na boca de? -  de quem mesmo? De quem ama o falar e o mostrar mais do que o pensar e o sentir, em silêncio, em solidão.



17/06/2013 13:57h

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Vida, uma avalanche de estímulos (Título Roubado)

Como tenho passado? 

Que pergunta sugestiva...Acho que não tenho passado, antes, o mundo passa por mim. Como aquela folhinha pequena que se gruda no asfalto depois de uma longa chuva, insiste em ficar ali, mesmo que carros, ventos, outras águas ou até mesmo uma senhorinha insistente com mania de limpeza a bravejar - "Folhinha mais sem rumo, insiste em se prender no chão". Não, eu não saio, não, eu não me levanto, daqui vejo com orgulho o mundo passar - e que passe, que voe, que ande, que corra, que se afunde, que me esqueça, eu serei apenas uma folhinha, hoje verde e inteira, amanhã seca e moída, desintegrada - parte do mundo, parte desse moinho.
Não seria mais fácil dizer apenas, passo muito bem, querida, (...) ? Não seria?
04/06/2013 - 23:15h

segunda-feira, 3 de junho de 2013

"O vermelho anoiteceu"

Desenho de Karina M. Silva

No outro dia, quando estivemos juntas, você insistiu para saber o que se passava - para que em meus olhos refletisse algo submerso na alma.
Não respondi, puro medo e receio. É tão mais simples nos mostrarmos rasos e simples, na verdade, penso que a maioria das pessoas tem preguiça das relações, conversas e vidas profundas. Dói despir a alma, tirar do calabouço impressões que saltam a face à ruborizar.
Ando tão cansada das rugas da minha caminhada, e que grande ironia, hoje, necessitava jogar fora os entulhos, as poeiras dessa "sala"; Eu não sei fazer isso, se não pela palavra. A ironia é, eu não queria lhe mostrar essa "sala", mas já descobri que, da minha mente, saltam palavras e correm ao teu encontro; Preciso limpar a "sala", as minhas trabalhadoras só se levantam quando sabem que se encaminharam a seus olhos. Desculpe lhe entregar esses entulhos, mas é necessário. Não repare a confusão, a escuridão e falta de delicadeza dessa "sala". Queria que voce fosse uma visita que entrasse em minha casa para conhecer o que as visitas conhecem, chás, conversas e um volte sempre, no entanto, abro as portas com meus móveis empoeirados - entre, não sente, há confusão, ha choro, há muita vergonha e dor, levante-se, eu sei que não voltará mais, a casa precisa ser limpa e a "sala demolida".
Há o que dizer, mas me faltam palavras, quer saber o que se fez do que fui?
O poeta dirá, para quem um dia cultivar interesse: Versos recolhidos.
"(...) Parte-se em mim qualquer coisa. O vermelho anoiteceu.
Senti demais para poder continuar a sentir.
Esgotou-se a alma, ficou só um eco dentro de mim.
(...) Tiram-me um pouco as mãos dos olhos os meus sonhos.
Dentro de mim há só um vácuo, um deserto, um mar noturno.
E logo que sinto que há um mar noturno dentro de mim,
Sobe dos longes dele, nasce do seu silêncio, outra vez, outra vez, o vasto grito antiquíssimo De repente como um relâmpago de som, que não faz barulho, mas ternura.
(...) O meu passado ressurge, como se esse grito marítimo
Fosse um aroma, uma voz, o eco duma canção
Que fosse chamar o meu passado
Por aquela felicidade que nunca mais tornarei a ter.
(...) Ah, como pude eu pensar, sonhar aquelas coisas?
Que longe estou do que fui há uns momentos!
Histeria das sensações - ora estas, ora as opostas!
(...) Mas tudo isto foi o Passado, lanterna a uma esquina de rua velha,
Pensar nisto faz frio, faz fome duma coisa que se não pode obter.
Dá-me não sei que remorso absurdo pensar nisto.
Oh turbilhão lento de sensações desencontradas!
Vertigem tênue de confusas coisas na alma!
Fúrias partidas. (...) Grandes desabamentos de imaginação sobre os olhos dos sentidos, Lágrimas, lágrimas inúteis,
Leves brisas de contradição roçando pela face a alma...(...) - Álvaro de Campos (F.P)
Há uma canção mal traçada dentro de mim (...) No silencio comovido da minha alma. F.P

Maio de 2013.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Nostálgica Fidelidade

Rita Apoena
" Mesmo quando o outro vai embora, a gente não vai. A gente fica e faz um jardim, qualquer coisa para ocupar o tempo, um banco de almofadas coloridas, e pede aos passarinhos não sujarem ali porque aquele é o banco do nosso amor, do nosso grande amigo. Para que ele saiba que, em qualquer tempo, em qualquer lugar, daqui a não sei quantos anos, ele pode simplesmente voltar, sem mais explicações, para olhar o céu de mãos dadas."(Rita Apoena)



É a lembrança, melhor dizendo, a memória que possibilita a Fidelidade; 
Se a dependência ficasse a cargo dos sentimentos, que falível seria qualquer relação.
 Contudo, o que fazer quando a memória impede o avançar?
 Ser fiel é também não se mover, é estar estático. 
Preso nas lembranças, preso em vivencias, não é ser fiel a alguém, é ser fiel ao passado, 
nesse caso, a momentos passados, a sentimentos passados. 
Deveria existir um instante que a memória reconhecesse sua hora de sair, 
de se ausentar;
 Então a razão rapidamente trataria de pisar no acelerador e te levar para o próximo...
... momento inesquecível
 e te tornar fiel a outra
 - outra lembrança!




Obs: Essa ideia da relação entre a Fidelidade e Memória pode ser encontrada no pensamento de Comte-Sponville, mais especificamente na obra Pequeno Tratado das Grandes Virtudes 

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

SOBRE O ENGANO E O DESPREZO

Por Karina M. Silva

"Deitou-se, pois, Amnom, e fingiu-se doente; e, vindo o rei visitá-lo, disse Amnom, ao rei: Peço-te que minha irmã Tamar venha, e prepare dois bolos diante dos meus olhos, para que eu coma de sua mão.
Mandou então Davi à casa, a Tamar, dizendo: Vai à casa de Amnom, teu irmão, e faze-lhe alguma comida.
(...)Então disse Amnom a Tamar: Traze a comida ao quarto, e comerei da tua mão. E tomou Tamar os bolos que fizera, e levou-os a Amnom, seu irmão, no quarto.
E chegando-lhos, para que comesse, pegou dela, e disse-lhe: Vem, deita-te comigo, minha irmã.
Porém ela lhe disse: Não, meu irmão, não me forces, porque não se faz assim em Israel; não faças tal loucura.
Porque, aonde iria eu com a minha vergonha? E tu serias como um dos loucos de Israel. Agora, pois, peço-te que fales ao rei, porque não me negará a ti.
Porém ele não quis dar ouvidos à sua voz; antes, sendo mais forte do que ela, a forçou, e se deitou com ela.
Depois Amnom sentiu grande aversão por ela, pois maior era o ódio que sentiu por ela do que o amor com que a amara. E disse-lhe Amnom: Levanta-te, e vai-te.
Então ela lhe disse: Não há razão de me despedires assim; maior seria este mal do que o outro que já me tens feito. Porém não lhe quis dar ouvidos.
E chamou a seu moço que o servia, e disse: Ponha fora a esta, e fecha a porta após ela.
E trazia ela uma roupa de muitas cores (porque assim se vestiam as filhas virgens dos reis); e seu servo a pôs para fora, e fechou a porta após ela.
Então Tamar tomou cinza sobre a sua cabeça, e a roupa de muitas cores que trazia rasgou; e pôs as mãos sobre a cabeça, e foi andando e clamando"(2 Samuel 13:6-19)


25 de setembro
Por que não poderá uma tal noite durar mais tempo? Se
Alectrion se pôde esquecer, por que não teve o sol piedade bastante
para fazer como ele? Contudo, tudo está acabado, e não desejo voltar
a vê-la jamais. Uma jovem é fraca quando deu tudo, — pois tudo
perdeu; porque a inocência é, no homem, um elemento negativo, mas
na mulher é a essência da sua natureza. Agora, qualquer resistência
é impossível, e só enquanto ela dura é belo amar; quando acabou,
não passa de fraqueza e hábito. Não desejo recordar-me das nossas
relações; ela está desflorada e não estamos já no tempo em que o
desgosto de uma jovem abandonada a transformava num heliotrópio.
Não quero fazer-lhe as minhas despedidas; nada me repugna mais
que lágrimas e súplicas de mulher que tudo desfiguram e, contudo, a
nada conduzem. Amei-a, mas de agora em diante não pode já
interessar-me. Se eu fosse um deus faria aquilo que Netuno fez por
uma ninfa, transformá-la-ia em homem.
Como seria então picante saber se podemos evadir-nos dos
devaneios de uma jovem, e torná-la suficientemente orgulhosa para a
fazer imaginar que foi ela quem se cansou da ligação. Que epílogo
apaixonante que, no fundo, apresentaria um interesse psicológico e,
por outro lado, nos poderia oferecer uma boa ocasião para muitas
observações eróticas. (O DIÁRIO DE UM SEDUTOR - Kierkegaard)


segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Acordos sobre a necessidade da Solidão

Soren Kierkegaard

“O silêncio deles (afirmava sobre os amigos) é nitidamente proveitoso para mim, porque me obriga a fixar a vista no meu eu; porque me estimula a aprender esse eu que é o meu; porque me obriga a manter-me fixo na infinita instabilidade da vida e a voltar para mim o espelho côncavo
com que dantes procurava abarcar a vida fora de mim mesmo. Esse silêncio agrada-me porque me sinto capaz desse esforço e com coragem para segurar o espelho, mostre-me ele o que mostrar, o meu ideal ou a minha caricatura.” (Soren Kierkegaard)

Por ser...



Foto: Rita Apoena


E por ser tão alto, é também profundo
fundo como um oceano;
Escondido ...
feito pérola, feito coisas raras, feito a vida, feito a morte

É de propósito que me lanço para voo eterno
Não tens medo?
Sim, mas é por tê-lo que o desafio.
E se caindo, te machucares?
Enfim, compreendeste meu desejo...

Quero cair, quero a dor, quero a morte...o suor da angustia...
Por ser amor, é indispensável morrer.
Morrer?

Só há vida onde existiu a morte, nunca leste sobre a semente?
Se a semente não morrer não nascerá belas arvores com belos frutos...
Por ser tão triste é também tão lindo!
O morrer é ganho!

Desço as escalas do medo com orgulho
Piso no chão inebriado de escórias
Olho para o meu vômito e recordo...
...o meu pior agora está fora...

Com gozo me lanço na escuridão,
Quem irá até lá?
Quem encontrarei nesse abismo?
Ninguém...
Agora claramente entendo

Por ser amor, por ser assim
Estarei como a semente:
morta, sufocada, enterrada
Quem estará do meu lado?

Quem mais?


Por ser amor também é vida!

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Por que te abates, oh minha alma?






















 "Por que estás abatida, ó minha alma, e por que te perturbas em mim? Espera em Deus, pois ainda o louvarei pela salvação da sua face"Salmos 42:5



Ai minha alma! Cesse de andar a trancos e barrancos. Evite os excessos, se indisponha com caminhos alheios e desconhecidos. Retorne a sua paz, prossiga em veredas de luz.
Apegue-se a edificação, desvie o olhar dos passarinhos e das belas flores. Aquiete-se em lares simples, conversas brandas e em vozes mansas e diretas. Aparte-se das curvas e siga até a PEDRA ANGULAR, somente nela terás firmeza, logo, serás: perene, harmonia, equilíbrio, comunhão!


"Livra-me dos poços e dos becos de mim, Senhor" (Caio F.Abreu)

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Afagar de almas

Imagem: Dayane Ricci

O que dizer do que me cativa, sim, foram seus olhos
Distantes, confusos, incongruentes
Olhar de negação, desprendimento e inocência

Os corpos, esses se tocam por calor
só a alma se move pelo suspiro
Se engana quem pensa que o suspiro é corriqueiro,
é um fenômeno raro;

Vou descreve-lo: Os olhos tão maliciosos beliscam a alma do outro,
então, em resposta, ela suplica,  - caminhe em meu encontro;
em teimosia, os olhos permitem um voo de ternura e desejo,
- o recebemos com um frio agradável no ventre, o devolvemos com o suspiro.

Afagar de almas!


Comungando com Álvaro de Campos




(...) " Mas, enquanto não morro, falo e leio" (Fernando Pessoa)





               Sem mais!

sábado, 19 de janeiro de 2013

Sobre um possível desencanto

Créditos: Camila do Rosário
" A Lenta Flecha da beleza - A mais nobre espécie de beleza é aquela que não arrebata de vez, que não se vale de assaltos tempestuosos e embriagantes (uma beleza assim desperta facilmente o nojo), mas que lentamente se infiltra, que levamos conosco quase sem perceber e deparamos novamente num sonho, e que afinal, após ter longamente ocupado um lugar modesto em nosso coração, se apodera completamente de nós, enchendo-nos os olhos de lágrimas e o coração de ânsias. - O que ansiamos ao ver a beleza? Ser belos: imaginamos que haveria muita felicidade ligado a isso. - Mas isto é um erro. (Aforismo 149 de Humano Demasiado Humano - NIETZSCHE)
Faço uso do texto de Nietzsche apenas como pano de fundo de um despejar de palavras ainda mal tratadas, pois, é a partir desse Aforismo que visualizo a necessidade um possível desencanto. Ditando a beleza perigosa, o autor faz menção de termos que caracterizam um encantamento ( não só a beleza física, mas a intelectual também), como o inebriar de um sonho e as ânsias que nascem da idealização.
O preocupante do encantamento é a falsa imagem e esperanças que trás aos sentidos, como a embriaguez, confunde a mente com ilusões e alterações sensoriais; Que exagero, diriam! Caro ingênuo, lhe previno, o encanto pode ser mais constrangedor do que qualquer desfrutar dionisíaco. Não há honestidade no olhar que se lança para o objeto do encantamento, espera-se demais, desenha-se demais, com cores e em papéis imaginários.
Contudo, me questiono, apenas para reforçar a mediocridade do meu texto, que responsabilidade tem o objeto do encantamento? Oras, é necessário avisar ao Tolo encantado que tudo não passa de belas miragens. Pode acontecer que aproximando-se do encantamento, esse mesmo Tolo, não receba flores, olhares, ou qualquer retribuição por tanto encanto; Que sorte a dele! Descobri que somente a frustração seguida da decepção são capazes de acordar o Tolo para a realidade sem encantamento, uma possível salvação do ridículo!
Desencante-se!

domingo, 13 de janeiro de 2013

Monólogo com Laís




Para Laís Squizzato., um e-mail jamais respondido, por isso tido como um monólogo.

Doce amiga, não é que Fernando Pessoa concordava com você sobre o amor, veja:


Imagem: "Você é quem você é" (Karina M.S)
" Nunca amamos alguém. Amamos, tão-somente, a ideia que fazemos de alguém. É a um
conceito nosso - em suma, é a nós mesmos - que amamos.
Isto é verdade em toda a escala do amor. No amor sexual buscamos um prazer nosso por
intermédio de um corpo estranho. No amor diferente do sexual, buscamos um prazer nosso
dado por intermédio de uma ideia nossa. O onanista é objecto, mas, em exata verdade, o
onanista é a perfeita expressão lógica do amoroso. É o único que não disfarça nem se engana.
As relações entre uma alma e outra, através de coisas tão incertas e divergentes como as
palavras comuns e os gestos que se empreendem, são matéria de estranha complexidade. No
próprio ato em que nos conhecemos, nos desconhecemos. Dizem os dois «amo-te» ou pensam
e sentem-no por troca, e cada um quer dizer uma ideia diferente, uma vida diferente, até,
porventura, uma cor ou um aroma diferente, na soma abstrata de impressões que constitui a
atividade da alma." (Livro do Desassossego)

Observe, contudo que, ele, aparentemente e sumariamente, concordava com Aristóteles; ora, amor e amizade correspondem a uma atividade da Alma, no entanto, são somente impressões, nos amarramos novamente na ideia da solidão, nunca saberemos quem é essa outra alma que nos toca e como nos toca, são os limites dessa carcere (o corpo/ a vida). 

Pobre alma sou eu, acredito no amor e na amizade!

Amo-te, amiga!