quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Gotas de Amor


Lembro do toque das suas mãos e viro milhões de mim, 


...ainda tenho gotas dessa loucura. 

Gotas tão profundas...














 que todo o resto é raso.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Minha Senhora



Ei minha senhora, não vem me dizer que cola...
Que estranho jeito de me olhar, que coisa rasa de me falar
Ei, minha senhora!
Esqueceu que me ensinou foi a andar e com seu olhar eu aprendi a amar?
Ei minha senhora, anda triste e sem pensar, me olha como quem não quer falar.
Esqueceu que de ti eu desaguei nesse mundo estranho, ah, minha senhora,
Conheço esses modos de exigir, que eu passe reto e não te espere admitir.
Sei que a vida é ruim e cheio de “não-explico”.
Mas, minha Senhora, nada é preciso dizer.
Faz como eu,
Não diz com palavras,
Esconde com os olhos,
Só não esquece:
Ei, minha Senhora,
Sou extensão do seu amor, palavra que não é dita, sou teu olhar, sou como tua vida!



Dias Tristes de 2014.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Laís Squizzato


A primeira vez que a vi? Provavelmente não lembro a genuína primeira vez, mas, posso, com riqueza de detalhes, descrever o momento que eu a desejei como minha amiga.

Sentada no fundo da sala de aula, com a mesma cara de quem é deslumbrada com o mundo, olhos cansados, cansados da vida, ou de viver. Tinha um livro da Clarice Lispector nas mãos – não lembro qual, mas com prazer tentava me explicar que a Grande Literária tinha muito da filosofia (chata, a meu ver) de Heidegger.

Eu a desejei no momento que entendi que aqueles olhos cansados eram cheios da ideia do “ser”, do “nada”, da busca e pela vida, da busca pela razão de algo que nem entendemos, mas perseguimos.

Eu ainda a desejei mais, a desejei no modo dela ser, modo engraçado, por vezes, estranho e ao mesmo tempo doce, tão doce, que assim caracterizo o começo da nossa amizade – cheia de momentos doces, encontros doces, promessas doces.

Certo é que no início, ela dizia: “Não me toque”, mas eu toquei. Toquei em um lugar tão secreto e guardado, que hoje reconheço que só eu estive lá. Sua exclusividade e silêncio nos tornaram únicas. Não há ninguém como ela na minha vida e eu sei que não há ninguém como eu na vida dela.

Confesso que sofri, apesar de termos nascido no mesmo mês, essa história de Signos não condiz com o nosso temperamento. Ela é a própria tranquilidade e desapego (pelo menos no sentido amplo), eu sou a maré alta, o desespero em pessoa, a ardência afetiva. Sofri de medo de perdê-la e temi não ser eu sua alma amiga.

Conhecer esses olhos cansados foi o maior presente que recebi da vida. Principalmente quando me esforcei para entender o jeito lindo que ela vê ou descobre a existência.

Laís é uma moça linda de cabelos caracóis: negros e volumosos, ex-gordinha, atual viajante com rumo e com causa. Quase vegan!
Laís é a gargalhada que faz doer à barriga, é também o telefone choroso na madrugada. É o amor dito e persistido. É a verdade desmedida, o dançar desengonçado sem pudor, o cantar dirigido; Laís é o livro que li e anotei: “Discutir com Laís”, “Explicar para Laís”, “Conversar com Laís”, “Isso me lembra de Laís”, “A Laís já me disse isso”, “Dar esse livro para Laís”.

Laís é uma mulher pensante e admirável, que hoje, perdeu o medo da vida e aprendeu que precisa descobrir sua existência.
Laís é a minha amiga, meu “grão de amor”, e para os que não entendem nada da vida, eu a deixo explicar, antes, contudo, deixo claro, mesmo que longe, ela sempre volta:

(...) não imagina minha surpresa quando des-cobri que o mundo realmente existe para além da minha imaginação.

 Sempre repeti os movimentos ao redor sem perceber que eram os meus movimentos que estavam ali também - minhas ações, meu corpo, minha voz -, todos eles sendo executados sem atenção nenhuma. Repito publicidade e sonhos ilusórios. Repito medo, compulsões e silêncio. Repito a traição comigo mesma e com os outros. Repito a ganância e a inveja. Foram tantos anos que, quando tomei consciência, acreditei que fossem mais fortes do que eu. Fiquei abismada e depressiva: não estava pronta para lidar com a realidade. Intoxicada de angústia e pessimismo, entrei em pânico e me encolhi como uma criança assustada. E como uma criança comecei de novo a olhar o mundo... agora com tanto cuidado! E todo esse emaranhado de padrões que me deixei criar continua... com a diferença de que agora escolho o que repetir e aprender. Escolho o simples e a paz.

Posso me agarrar aos livros para construir uma carreira e ensinar sobre a vida com conexões lógicas. Não agora. Não tenho interesse no prestígio acadêmico de transmitir os sábios ou gênios sem antes me experimentar. Não quero as respostas prontas como nos vendem - muitas delas me ferem. Quero a experiência de aprender pão caseiro com a minha avó e não a de comprar em um supermercado por questão de praticidade vazia; Admirar uma obra de arte na rua e fazer valer mais do que um quadro de quinze milhões de dólares; Estudar geografia explorando lugares e culturas, não só com fotos e dados da internet; Aprender história ouvindo pessoas de bom coração contando suas vidas e a de seus tataravós; Não fazer meditação para me livrar do stress e correria de um capitalismo histérico, mas para me arriscar a compreender a leveza e poder compartilhar o que sou sem o peso da responsabilidade medíocre de ser o que qualquer um queira que eu seja. Quero ter a coragem de falar essas palavras pra minha mãe e não me calar quando ela estiver na minha frente, com um olhar doce e triste.

Minha vontade de viajar não é tola e inocente. Não é fuga irresponsável. É aprendizagem viva. Tenho vontade, tempo e companhia pra correr o mundo agora. E vou. (...)” L.S

INVERNO 2014.

G.K

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Sou uma Ilha.


Sem saber eu me ilho em você,

À espera dos encontros desmedidos e das mentiras calculadas.

A vida sem tuas mãos é um aço moído, corroído, 

que desce como uma aterrorizante dor.

Não há esperança, pelo contrário, há destroços e horror.

Contudo, como viajantes sem pátria, dia a dia eu volto os olhos para
 o horizonte;

só vejo você: 

meu começo, 
meu meio
meu fim.


Sou uma ilha.



Não datado.

quinta-feira, 20 de março de 2014

Adeus, meu pequeno mundo.

Ilustração de Karina M.

Aquele que conhece o profundo de minha alma sabe o quanto adiei o dia de escrever, no entanto, hoje me arrisco a caminhar nas palavras que saltam de um passado imerso (quase) no esquecimento.

Começo assim:
... entre, será a ultima vez que compartilharemos o nosso pequeno mundo...
Sente-se.
Quer um café? Não?
Um sorriso?
Um abraço?
Será o último.
Bom, nesse caso, vou prosseguir, não tenho muito tempo, nem para lembranças, que dirá para lamentos.

Sinto-me estranha, olho para você e só recolho folhas, como se viesse de um vendaval. Onde esteve?

Por favor, quero suprimir esse dialogo. Agora só eu falo.
Antes de tudo, recolha o que é seu nesse mundo. Não ... Não irá levar o que é meu, portanto, deixe meu café, meu sorriso e meu abraço.
Eu sei que pareço estranha, antes só existiam flores aqui, germinadas em terras férteis e sadias, agora tudo está empoeirado e podre. Faz muito tempo que não venho.
Estive há algum tempo e até pensei estar na sua presença, acordei absorvida pela sua imagem e corri , abri a porta, entrei e dormi em seus braços. Não era você, apenas lembranças boas de um amor inventado. Já nesse dia você estava longe.
Não há ninguém , você nunca esteve aqui, eu amava o inventado, então, para minha e sua surpresa, é a primeira vez que pisa seus pés nesse pequeno mundo.

Que lástima! Esse lugar era seu, já que não o conhece vou lhe contar para enfim chegarmos ao fim.

O amor é genioso, me fez construir um mundo ao seu redor, aqui eu morei e fui feliz, passava horas absorvida pelo veneno do amor, a poção da eternidade.
Aqui eu ergui torres, altares, escadas e mobílias, coloquei seu nome em cada porta – eu me esqueci de mim.

Você nunca esteve aqui.

Onde estava?

Eu a amei como não se deve amar, amei como se ama o infinito, o eterno, amei pecando, eternizando o efêmero.
Hoje eu vim só para fechar as portas e lhe dar a chave, nunca mais retornarei aqui, mas você poderá vir. Dentro daquele armário existe um estoque de palavras guardadas, são palavras repetidas, mas que foram escolhidas e ditas apenas para o meu amor. Abra quando tiver fome, coma dessas palavras, elas são suas, infelizmente a palavra dita não pode voltar, portanto, elas são suas, eu já as lancei. Na verdade, eu as entreguei em bandejas de ouro e como você as jogou no chão, recolhi e guardei aqui, sabia que um dia elas lhe fariam falta.

Suba as escadas.
Entre.
Nesse quarto está o mais importante, meus olhares e meu calor – enfim, aqui está o meu antigo querer. Olhe para ele se for capaz, era lindo, forte, um muro alto e quase inquebrável.
Ele morreu?
Sim.
Amores só duram quando existem, e o meu nunca existiu, era um sonho, ideal que criei.
Ele permaneceu vivido até descobrir que você nunca esteve aqui, nesse dia essa casa estremeceu e ele caiu de joelhos aos seus pés, olhou para seus olhos chorando e reclamou sua ausência pela ultima vez.
Lembra-se daquela saudade? Daquele medo que sempre reclamava em teus ouvidos, agora entendo, eu não sussurrava, era grito de desespero, apesar de tão perto o corpo, sua alma nunca visitou a casa do amor.

Como estou?
Feliz. Só voltei para lhe entregar as chaves.
Onde moro?
Não mais em uma casa.
Não?
Moro em uma alma. Encontrei alguém que não me deixou construir um lugar, ela disse: “eu sou o lugar, repouse em mim”.
Entrei.
Sentei.
Tomei um café.
Ganhei um abraço.
Um sorriso.
E fiquei.
Encontrei um amor que existe.

Falando nisso, ela me espera, não posso demorar... Aproveite essa casa e as lembranças, foi o que sobrou de mim para você.
Não vai levar nada?
Não, não preciso - tenho tudo e não há tempo, nem vontade de voltar, eu não quero mais ficar.
Seja feliz.
Desejo-lhe um café, um sorriso e um abraço, de outro alguém que nunca te amará como eu, ainda bem, amores assim não existem.

Adeus, meu pequeno mundo.


 Outono de 2014.

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

"Não sei como agradecer sua amizade"

“Não sei como agradecer sua amizade, Fernando” (Clarice Lispector em carta escrita a Fernando Sabino)

O Livro, “Cartas perto do coração” é a reunião de algumas cartas trocadas entre Fernando Sabino e Clarice Lispector no período que ela morou na Europa e ele residia ora no Brasil, ora no EUA.
É necessário respirar um pouco antes de começar a falar desse livro, na verdade, o livro não será o ponto principal desse texto, não por falta de vontade e sim, por falta de capacidade. É claro que meu desejo pueril era de tecer delongas significativas sobre essa obra, mas me falta ambição e material para isso, quem sabe um dia o desejo se concretize. Portanto, pretendo dar louvor as grandes sensações que podem ser vistas nele e alguns detalhes que confirmam ainda mais a minha admiração pela amizade.
As cartas de Sabino para Clarice são quase sempre um exagero de elogios, as palavras derramam volúpia, um desavisado poderia até imaginar que não se tratava de amizade. Porém, era amizade, umas das mais belas que a Literatura brasileira já presenciou.  Fernando não escondia nada de Clarice, colocava sua alma transparente, suas linhas, seu rosto, tudo era exposto para Clarice, através de uma confiança que ia alem do profissional. Era nítido o interesse do escritor na sabedoria literária de Lispector, contudo, era ainda mais notável seu desejo de que ela o visse como um artista, como aquele que sensibiliza, que expressa, que acolhe o mundo e suas representações. Nada escapa dos olhos de Clarice, porque Fernando deixava tudo à mostra.
Clarice, sendo a Clarice de sempre, era mais introspectiva em suas cartas. Colocava-se sempre em segundo plano, delegando a sua escrita a uma necessidade fisiológica de suportar o mundo. Não tinha sapiência no existir, era pesado o dia a dia. Como reclamava para Fernando! No entanto, nunca vi Clarice tão desnuda, tão fora de um personagem, sendo ela com suas inseguranças. É notável que a amizade entres eles possibilitava  a liberdade de expressar o estranhamento e o constrangimento que a vida lhe causava. Por outro lado, Lispector consegue demonstrar tanta ternura e carinho por Sabino que é fácil identificar que a amizade se tornara algo acalentador, tranquilizador e porque não, intermediador de uma vida mais possível de viver.  Reconheço que Clarice via em Fernando uma identificação, não só pelo fato de serem escritores, mas também porque ela conseguia alcançar nas palavras de Sabino uma lacuna que não era preenchida por suas letras.

“É curioso como seu livro e o meu têm a mesma raiz. Só que o meu termina com uma luz mais aberta – o encontro marcado se realiza... O fato de você ter escrito esse livro e eu ter escrito o meu, não é começo da maturidade?... Me de a certeza de um encontro marcado, e a esperança. ...Depois desse livro, ainda sou mais sua amiga. Mas a verdade também é que, se não tivesse gostado tanto, também seria. (8/01/1957)” Clarice para Fernando.

Invejo a amizade literária desses dois autores, era tamanha a afinidade que eles permitiam critica mútua em diversos textos; Fernando dava sugestões como troca de,  adjetivos, conceitos e até mesmo frases inteiras. Porém, os comentários eram sempre construtivos.
Contudo, o que mais me impressiona nesses diálogos por cartas era a intimidade dos dois, as lembranças que sempre traziam fatos comuns, lugares comuns e ideias comuns. Clarice e Fernando, contrariando a noção de que amizade tem que ser sempre de “corpo presente”, mantinham ardendo à chama da amizade, mesmo longe. Isso é notório nas despedidas das cartas, eles sempre se despedem jurando amizade, deixando saudades e pedindo que a resposta da carta não tardasse.
Clarice era grata, a ponto de não saber como agradecer. A verdade é que a amizade também nos desperta essa sensação, entendo essa impotência de Clarice, existem amigos que são sempre tão presentes (e uso esse termo no sentido não somente da presença física, mas no conceito de ser sempre visto – participar das situações, ruins ou não, estar perto, ser alcançável, aquele que não precisa ser chamado, porque sempre está ao lado) que nos despertam um desejo de retribuir, no entanto, parece que nada pode ser feito para compensar tamanho comprometimento. Eu diria em uma linguagem mais vulgar que existem amigos que são impagáveis.
Como se chama aquilo que você sente quando olha para alguém e a admira não só pelo que ela faz, mas também pelo o que ela é? Ou quando identifica que em outro ser também mora uma força que é capaz de te acolher, em qualquer tempo, como se chama isso?Eu não sei, mas há quem diga que a amizade é assim, e  acontece.

“Clarice Lispector é uma coisa riscadinha sozinha num canto, esperando, esperando” .`Fernando Sabino


P.S: Dedico essas linhas mal escritas a uma amiga que sempre desperta em mim a sensação de gratidão, uma mulher acima da média, admirável e incomparável. Não sei como agradecer sua amizade, Angelica Motta.


Verão de 2014.

G.K


terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Ensaiei a tristeza de lhe perder

Quer se ver através do meu amor?



O peso dos seus olhos nos meus me inundam a alma,

Marcam em mim o gosto do eterno, a presença do inacabável

O vento dos seus lábios cala o mundo, despertam borboletas, adormecem os pesadelos.

A leveza dos seus braços me transporta para dentro de você, me assopra para sua alma, me abraça, me rouba, me acolhe, me esmaga, me mata e me liberta.

Sou tão tua que nem sabes, sou tão tua que só me acho em ti.


G.K

Verão de 2014.