segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Minha Senhora



Ei minha senhora, não vem me dizer que cola...
Que estranho jeito de me olhar, que coisa rasa de me falar
Ei, minha senhora!
Esqueceu que me ensinou foi a andar e com seu olhar eu aprendi a amar?
Ei minha senhora, anda triste e sem pensar, me olha como quem não quer falar.
Esqueceu que de ti eu desaguei nesse mundo estranho, ah, minha senhora,
Conheço esses modos de exigir, que eu passe reto e não te espere admitir.
Sei que a vida é ruim e cheio de “não-explico”.
Mas, minha Senhora, nada é preciso dizer.
Faz como eu,
Não diz com palavras,
Esconde com os olhos,
Só não esquece:
Ei, minha Senhora,
Sou extensão do seu amor, palavra que não é dita, sou teu olhar, sou como tua vida!



Dias Tristes de 2014.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Laís Squizzato


A primeira vez que a vi? Provavelmente não lembro a genuína primeira vez, mas, posso, com riqueza de detalhes, descrever o momento que eu a desejei como minha amiga.

Sentada no fundo da sala de aula, com a mesma cara de quem é deslumbrada com o mundo, olhos cansados, cansados da vida, ou de viver. Tinha um livro da Clarice Lispector nas mãos – não lembro qual, mas com prazer tentava me explicar que a Grande Literária tinha muito da filosofia (chata, a meu ver) de Heidegger.

Eu a desejei no momento que entendi que aqueles olhos cansados eram cheios da ideia do “ser”, do “nada”, da busca e pela vida, da busca pela razão de algo que nem entendemos, mas perseguimos.

Eu ainda a desejei mais, a desejei no modo dela ser, modo engraçado, por vezes, estranho e ao mesmo tempo doce, tão doce, que assim caracterizo o começo da nossa amizade – cheia de momentos doces, encontros doces, promessas doces.

Certo é que no início, ela dizia: “Não me toque”, mas eu toquei. Toquei em um lugar tão secreto e guardado, que hoje reconheço que só eu estive lá. Sua exclusividade e silêncio nos tornaram únicas. Não há ninguém como ela na minha vida e eu sei que não há ninguém como eu na vida dela.

Confesso que sofri, apesar de termos nascido no mesmo mês, essa história de Signos não condiz com o nosso temperamento. Ela é a própria tranquilidade e desapego (pelo menos no sentido amplo), eu sou a maré alta, o desespero em pessoa, a ardência afetiva. Sofri de medo de perdê-la e temi não ser eu sua alma amiga.

Conhecer esses olhos cansados foi o maior presente que recebi da vida. Principalmente quando me esforcei para entender o jeito lindo que ela vê ou descobre a existência.

Laís é uma moça linda de cabelos caracóis: negros e volumosos, ex-gordinha, atual viajante com rumo e com causa. Quase vegan!
Laís é a gargalhada que faz doer à barriga, é também o telefone choroso na madrugada. É o amor dito e persistido. É a verdade desmedida, o dançar desengonçado sem pudor, o cantar dirigido; Laís é o livro que li e anotei: “Discutir com Laís”, “Explicar para Laís”, “Conversar com Laís”, “Isso me lembra de Laís”, “A Laís já me disse isso”, “Dar esse livro para Laís”.

Laís é uma mulher pensante e admirável, que hoje, perdeu o medo da vida e aprendeu que precisa descobrir sua existência.
Laís é a minha amiga, meu “grão de amor”, e para os que não entendem nada da vida, eu a deixo explicar, antes, contudo, deixo claro, mesmo que longe, ela sempre volta:

(...) não imagina minha surpresa quando des-cobri que o mundo realmente existe para além da minha imaginação.

 Sempre repeti os movimentos ao redor sem perceber que eram os meus movimentos que estavam ali também - minhas ações, meu corpo, minha voz -, todos eles sendo executados sem atenção nenhuma. Repito publicidade e sonhos ilusórios. Repito medo, compulsões e silêncio. Repito a traição comigo mesma e com os outros. Repito a ganância e a inveja. Foram tantos anos que, quando tomei consciência, acreditei que fossem mais fortes do que eu. Fiquei abismada e depressiva: não estava pronta para lidar com a realidade. Intoxicada de angústia e pessimismo, entrei em pânico e me encolhi como uma criança assustada. E como uma criança comecei de novo a olhar o mundo... agora com tanto cuidado! E todo esse emaranhado de padrões que me deixei criar continua... com a diferença de que agora escolho o que repetir e aprender. Escolho o simples e a paz.

Posso me agarrar aos livros para construir uma carreira e ensinar sobre a vida com conexões lógicas. Não agora. Não tenho interesse no prestígio acadêmico de transmitir os sábios ou gênios sem antes me experimentar. Não quero as respostas prontas como nos vendem - muitas delas me ferem. Quero a experiência de aprender pão caseiro com a minha avó e não a de comprar em um supermercado por questão de praticidade vazia; Admirar uma obra de arte na rua e fazer valer mais do que um quadro de quinze milhões de dólares; Estudar geografia explorando lugares e culturas, não só com fotos e dados da internet; Aprender história ouvindo pessoas de bom coração contando suas vidas e a de seus tataravós; Não fazer meditação para me livrar do stress e correria de um capitalismo histérico, mas para me arriscar a compreender a leveza e poder compartilhar o que sou sem o peso da responsabilidade medíocre de ser o que qualquer um queira que eu seja. Quero ter a coragem de falar essas palavras pra minha mãe e não me calar quando ela estiver na minha frente, com um olhar doce e triste.

Minha vontade de viajar não é tola e inocente. Não é fuga irresponsável. É aprendizagem viva. Tenho vontade, tempo e companhia pra correr o mundo agora. E vou. (...)” L.S

INVERNO 2014.

G.K