domingo, 17 de fevereiro de 2013

Nostálgica Fidelidade

Rita Apoena
" Mesmo quando o outro vai embora, a gente não vai. A gente fica e faz um jardim, qualquer coisa para ocupar o tempo, um banco de almofadas coloridas, e pede aos passarinhos não sujarem ali porque aquele é o banco do nosso amor, do nosso grande amigo. Para que ele saiba que, em qualquer tempo, em qualquer lugar, daqui a não sei quantos anos, ele pode simplesmente voltar, sem mais explicações, para olhar o céu de mãos dadas."(Rita Apoena)



É a lembrança, melhor dizendo, a memória que possibilita a Fidelidade; 
Se a dependência ficasse a cargo dos sentimentos, que falível seria qualquer relação.
 Contudo, o que fazer quando a memória impede o avançar?
 Ser fiel é também não se mover, é estar estático. 
Preso nas lembranças, preso em vivencias, não é ser fiel a alguém, é ser fiel ao passado, 
nesse caso, a momentos passados, a sentimentos passados. 
Deveria existir um instante que a memória reconhecesse sua hora de sair, 
de se ausentar;
 Então a razão rapidamente trataria de pisar no acelerador e te levar para o próximo...
... momento inesquecível
 e te tornar fiel a outra
 - outra lembrança!




Obs: Essa ideia da relação entre a Fidelidade e Memória pode ser encontrada no pensamento de Comte-Sponville, mais especificamente na obra Pequeno Tratado das Grandes Virtudes 

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

SOBRE O ENGANO E O DESPREZO

Por Karina M. Silva

"Deitou-se, pois, Amnom, e fingiu-se doente; e, vindo o rei visitá-lo, disse Amnom, ao rei: Peço-te que minha irmã Tamar venha, e prepare dois bolos diante dos meus olhos, para que eu coma de sua mão.
Mandou então Davi à casa, a Tamar, dizendo: Vai à casa de Amnom, teu irmão, e faze-lhe alguma comida.
(...)Então disse Amnom a Tamar: Traze a comida ao quarto, e comerei da tua mão. E tomou Tamar os bolos que fizera, e levou-os a Amnom, seu irmão, no quarto.
E chegando-lhos, para que comesse, pegou dela, e disse-lhe: Vem, deita-te comigo, minha irmã.
Porém ela lhe disse: Não, meu irmão, não me forces, porque não se faz assim em Israel; não faças tal loucura.
Porque, aonde iria eu com a minha vergonha? E tu serias como um dos loucos de Israel. Agora, pois, peço-te que fales ao rei, porque não me negará a ti.
Porém ele não quis dar ouvidos à sua voz; antes, sendo mais forte do que ela, a forçou, e se deitou com ela.
Depois Amnom sentiu grande aversão por ela, pois maior era o ódio que sentiu por ela do que o amor com que a amara. E disse-lhe Amnom: Levanta-te, e vai-te.
Então ela lhe disse: Não há razão de me despedires assim; maior seria este mal do que o outro que já me tens feito. Porém não lhe quis dar ouvidos.
E chamou a seu moço que o servia, e disse: Ponha fora a esta, e fecha a porta após ela.
E trazia ela uma roupa de muitas cores (porque assim se vestiam as filhas virgens dos reis); e seu servo a pôs para fora, e fechou a porta após ela.
Então Tamar tomou cinza sobre a sua cabeça, e a roupa de muitas cores que trazia rasgou; e pôs as mãos sobre a cabeça, e foi andando e clamando"(2 Samuel 13:6-19)


25 de setembro
Por que não poderá uma tal noite durar mais tempo? Se
Alectrion se pôde esquecer, por que não teve o sol piedade bastante
para fazer como ele? Contudo, tudo está acabado, e não desejo voltar
a vê-la jamais. Uma jovem é fraca quando deu tudo, — pois tudo
perdeu; porque a inocência é, no homem, um elemento negativo, mas
na mulher é a essência da sua natureza. Agora, qualquer resistência
é impossível, e só enquanto ela dura é belo amar; quando acabou,
não passa de fraqueza e hábito. Não desejo recordar-me das nossas
relações; ela está desflorada e não estamos já no tempo em que o
desgosto de uma jovem abandonada a transformava num heliotrópio.
Não quero fazer-lhe as minhas despedidas; nada me repugna mais
que lágrimas e súplicas de mulher que tudo desfiguram e, contudo, a
nada conduzem. Amei-a, mas de agora em diante não pode já
interessar-me. Se eu fosse um deus faria aquilo que Netuno fez por
uma ninfa, transformá-la-ia em homem.
Como seria então picante saber se podemos evadir-nos dos
devaneios de uma jovem, e torná-la suficientemente orgulhosa para a
fazer imaginar que foi ela quem se cansou da ligação. Que epílogo
apaixonante que, no fundo, apresentaria um interesse psicológico e,
por outro lado, nos poderia oferecer uma boa ocasião para muitas
observações eróticas. (O DIÁRIO DE UM SEDUTOR - Kierkegaard)


segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Acordos sobre a necessidade da Solidão

Soren Kierkegaard

“O silêncio deles (afirmava sobre os amigos) é nitidamente proveitoso para mim, porque me obriga a fixar a vista no meu eu; porque me estimula a aprender esse eu que é o meu; porque me obriga a manter-me fixo na infinita instabilidade da vida e a voltar para mim o espelho côncavo
com que dantes procurava abarcar a vida fora de mim mesmo. Esse silêncio agrada-me porque me sinto capaz desse esforço e com coragem para segurar o espelho, mostre-me ele o que mostrar, o meu ideal ou a minha caricatura.” (Soren Kierkegaard)

Por ser...



Foto: Rita Apoena


E por ser tão alto, é também profundo
fundo como um oceano;
Escondido ...
feito pérola, feito coisas raras, feito a vida, feito a morte

É de propósito que me lanço para voo eterno
Não tens medo?
Sim, mas é por tê-lo que o desafio.
E se caindo, te machucares?
Enfim, compreendeste meu desejo...

Quero cair, quero a dor, quero a morte...o suor da angustia...
Por ser amor, é indispensável morrer.
Morrer?

Só há vida onde existiu a morte, nunca leste sobre a semente?
Se a semente não morrer não nascerá belas arvores com belos frutos...
Por ser tão triste é também tão lindo!
O morrer é ganho!

Desço as escalas do medo com orgulho
Piso no chão inebriado de escórias
Olho para o meu vômito e recordo...
...o meu pior agora está fora...

Com gozo me lanço na escuridão,
Quem irá até lá?
Quem encontrarei nesse abismo?
Ninguém...
Agora claramente entendo

Por ser amor, por ser assim
Estarei como a semente:
morta, sufocada, enterrada
Quem estará do meu lado?

Quem mais?


Por ser amor também é vida!