A primeira vez que a vi?
Provavelmente não lembro a genuína primeira vez, mas, posso, com riqueza de
detalhes, descrever o momento que eu a desejei como minha amiga.
Sentada no fundo da sala
de aula, com a mesma cara de quem é deslumbrada com o mundo, olhos cansados,
cansados da vida, ou de viver. Tinha um livro da Clarice Lispector nas mãos –
não lembro qual, mas com prazer tentava me explicar que a Grande Literária
tinha muito da filosofia (chata, a meu ver) de Heidegger.
Eu a desejei no momento
que entendi que aqueles olhos cansados eram cheios da ideia do “ser”, do “nada”,
da busca e pela vida, da busca pela razão de algo que nem entendemos, mas
perseguimos.
Eu ainda a desejei mais, a
desejei no modo dela ser, modo engraçado, por vezes, estranho e ao mesmo tempo
doce, tão doce, que assim caracterizo o começo da nossa amizade – cheia de
momentos doces, encontros doces, promessas doces.
Certo é que no início, ela
dizia: “Não me toque”, mas eu toquei. Toquei em um lugar tão secreto e
guardado, que hoje reconheço que só eu estive lá. Sua exclusividade e silêncio
nos tornaram únicas. Não há ninguém como ela na minha vida e eu sei que não há
ninguém como eu na vida dela.
Confesso que sofri, apesar
de termos nascido no mesmo mês, essa história de Signos não condiz com o nosso
temperamento. Ela é a própria tranquilidade e desapego (pelo menos no sentido
amplo), eu sou a maré alta, o desespero em pessoa, a ardência afetiva. Sofri de
medo de perdê-la e temi não ser eu sua alma amiga.
Conhecer esses olhos
cansados foi o maior presente que recebi da vida. Principalmente quando me
esforcei para entender o jeito lindo que ela vê ou descobre a existência.
Laís é uma moça linda de
cabelos caracóis: negros e volumosos, ex-gordinha, atual viajante com rumo e
com causa. Quase vegan!
Laís é a gargalhada que
faz doer à barriga, é também o telefone choroso na madrugada. É o amor dito e
persistido. É a verdade desmedida, o dançar desengonçado sem pudor, o cantar
dirigido; Laís é o livro que li e anotei: “Discutir com Laís”, “Explicar para
Laís”, “Conversar com Laís”, “Isso me lembra de Laís”, “A Laís já me disse
isso”, “Dar esse livro para Laís”.
Laís é uma mulher pensante
e admirável, que hoje, perdeu o medo da vida e aprendeu que precisa descobrir
sua existência.
Laís é a minha amiga, meu “grão
de amor”, e para os que não entendem nada da vida, eu a deixo explicar, antes,
contudo, deixo claro, mesmo que longe, ela sempre volta:
(...) não imagina minha surpresa quando des-cobri que o mundo realmente existe
para além da minha imaginação.
Sempre repeti os movimentos ao redor sem perceber que eram os meus
movimentos que estavam ali também - minhas ações, meu corpo, minha voz -, todos
eles sendo executados sem atenção nenhuma. Repito publicidade e sonhos
ilusórios. Repito medo, compulsões e silêncio. Repito a traição comigo mesma e
com os outros. Repito a ganância e a inveja. Foram tantos anos que, quando
tomei consciência, acreditei que fossem mais fortes do que eu. Fiquei
abismada e depressiva: não estava pronta para lidar com a realidade.
Intoxicada de angústia e pessimismo, entrei em pânico e me encolhi como uma
criança assustada. E como uma criança comecei de novo a olhar o mundo... agora
com tanto cuidado! E todo esse emaranhado de padrões que me deixei criar
continua... com a diferença de que agora escolho o que repetir e aprender.
Escolho o simples e a paz.
Posso me agarrar aos livros para construir uma carreira e ensinar sobre
a vida com conexões lógicas. Não agora. Não tenho interesse no prestígio
acadêmico de transmitir os sábios ou gênios sem antes me experimentar. Não
quero as respostas prontas como nos vendem - muitas delas me ferem. Quero a
experiência de aprender pão caseiro com a minha avó e não a de comprar em um
supermercado por questão de praticidade vazia; Admirar uma obra de arte na rua
e fazer valer mais do que um quadro de quinze milhões de dólares; Estudar
geografia explorando lugares e culturas, não só com fotos e dados da internet;
Aprender história ouvindo pessoas de bom coração contando suas vidas e a de
seus tataravós; Não fazer meditação para me livrar do stress e correria de um
capitalismo histérico, mas para me arriscar a compreender a leveza e poder
compartilhar o que sou sem o peso da responsabilidade medíocre de ser o que
qualquer um queira que eu seja. Quero ter a coragem de falar essas
palavras pra minha mãe e não me calar quando ela estiver na minha frente, com
um olhar doce e triste.
Minha vontade de viajar não é tola e inocente. Não é fuga irresponsável.
É aprendizagem viva. Tenho vontade, tempo e companhia pra correr o mundo agora.
E vou. (...)” L.S
INVERNO 2014.
G.K

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