terça-feira, 5 de agosto de 2014

Laís Squizzato


A primeira vez que a vi? Provavelmente não lembro a genuína primeira vez, mas, posso, com riqueza de detalhes, descrever o momento que eu a desejei como minha amiga.

Sentada no fundo da sala de aula, com a mesma cara de quem é deslumbrada com o mundo, olhos cansados, cansados da vida, ou de viver. Tinha um livro da Clarice Lispector nas mãos – não lembro qual, mas com prazer tentava me explicar que a Grande Literária tinha muito da filosofia (chata, a meu ver) de Heidegger.

Eu a desejei no momento que entendi que aqueles olhos cansados eram cheios da ideia do “ser”, do “nada”, da busca e pela vida, da busca pela razão de algo que nem entendemos, mas perseguimos.

Eu ainda a desejei mais, a desejei no modo dela ser, modo engraçado, por vezes, estranho e ao mesmo tempo doce, tão doce, que assim caracterizo o começo da nossa amizade – cheia de momentos doces, encontros doces, promessas doces.

Certo é que no início, ela dizia: “Não me toque”, mas eu toquei. Toquei em um lugar tão secreto e guardado, que hoje reconheço que só eu estive lá. Sua exclusividade e silêncio nos tornaram únicas. Não há ninguém como ela na minha vida e eu sei que não há ninguém como eu na vida dela.

Confesso que sofri, apesar de termos nascido no mesmo mês, essa história de Signos não condiz com o nosso temperamento. Ela é a própria tranquilidade e desapego (pelo menos no sentido amplo), eu sou a maré alta, o desespero em pessoa, a ardência afetiva. Sofri de medo de perdê-la e temi não ser eu sua alma amiga.

Conhecer esses olhos cansados foi o maior presente que recebi da vida. Principalmente quando me esforcei para entender o jeito lindo que ela vê ou descobre a existência.

Laís é uma moça linda de cabelos caracóis: negros e volumosos, ex-gordinha, atual viajante com rumo e com causa. Quase vegan!
Laís é a gargalhada que faz doer à barriga, é também o telefone choroso na madrugada. É o amor dito e persistido. É a verdade desmedida, o dançar desengonçado sem pudor, o cantar dirigido; Laís é o livro que li e anotei: “Discutir com Laís”, “Explicar para Laís”, “Conversar com Laís”, “Isso me lembra de Laís”, “A Laís já me disse isso”, “Dar esse livro para Laís”.

Laís é uma mulher pensante e admirável, que hoje, perdeu o medo da vida e aprendeu que precisa descobrir sua existência.
Laís é a minha amiga, meu “grão de amor”, e para os que não entendem nada da vida, eu a deixo explicar, antes, contudo, deixo claro, mesmo que longe, ela sempre volta:

(...) não imagina minha surpresa quando des-cobri que o mundo realmente existe para além da minha imaginação.

 Sempre repeti os movimentos ao redor sem perceber que eram os meus movimentos que estavam ali também - minhas ações, meu corpo, minha voz -, todos eles sendo executados sem atenção nenhuma. Repito publicidade e sonhos ilusórios. Repito medo, compulsões e silêncio. Repito a traição comigo mesma e com os outros. Repito a ganância e a inveja. Foram tantos anos que, quando tomei consciência, acreditei que fossem mais fortes do que eu. Fiquei abismada e depressiva: não estava pronta para lidar com a realidade. Intoxicada de angústia e pessimismo, entrei em pânico e me encolhi como uma criança assustada. E como uma criança comecei de novo a olhar o mundo... agora com tanto cuidado! E todo esse emaranhado de padrões que me deixei criar continua... com a diferença de que agora escolho o que repetir e aprender. Escolho o simples e a paz.

Posso me agarrar aos livros para construir uma carreira e ensinar sobre a vida com conexões lógicas. Não agora. Não tenho interesse no prestígio acadêmico de transmitir os sábios ou gênios sem antes me experimentar. Não quero as respostas prontas como nos vendem - muitas delas me ferem. Quero a experiência de aprender pão caseiro com a minha avó e não a de comprar em um supermercado por questão de praticidade vazia; Admirar uma obra de arte na rua e fazer valer mais do que um quadro de quinze milhões de dólares; Estudar geografia explorando lugares e culturas, não só com fotos e dados da internet; Aprender história ouvindo pessoas de bom coração contando suas vidas e a de seus tataravós; Não fazer meditação para me livrar do stress e correria de um capitalismo histérico, mas para me arriscar a compreender a leveza e poder compartilhar o que sou sem o peso da responsabilidade medíocre de ser o que qualquer um queira que eu seja. Quero ter a coragem de falar essas palavras pra minha mãe e não me calar quando ela estiver na minha frente, com um olhar doce e triste.

Minha vontade de viajar não é tola e inocente. Não é fuga irresponsável. É aprendizagem viva. Tenho vontade, tempo e companhia pra correr o mundo agora. E vou. (...)” L.S

INVERNO 2014.

G.K

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