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| By Camila do Rosário |
PRÓXIMO DEMAIS. Se vivemos próximos demais a uma pessoa, é como se repetidamente tocássemos uma boa gravura com os dedos nus: um dia teremos nas mãos um sujo pedaço de papel, e nada, além disso. Também a alma de uma pessoa, ao ser continuamente tocada, acaba se desgastando; ao menos assim ela nos parece afinal – nós nunca mais vemos seu desenho e sua beleza originais. – Sempre se perde no relacionamento íntimo demais com mulheres e amigos; às vezes se perde a pérola de sua própria vida. (Nietzsche)
Caríssima, peço que não se sinta constrangida a responder esse texto, ou melhor, lhe incentivo a não ler as linhas que virão em seguida, são anedotas misturadas com o horror da percepção. Pois bem, caso tenha contrariado minha sugestão e já esteja acompanhando o desenrolar dessas linhas, imagino sua decepção a cada palavra mastigada, qual é o gosto? O cheiro? Que sensação lhe causam minhas letras? Caríssima, imagino que já tenha desistido de continuar, porém, é quase impossível parar de desenhar essas ideias - sabendo que seus olhos escorregam por minhas metáforas; Por isso, novamente irei aconselhar algo pratico para tirarmos de seus ombros o peso do meu fetiche – Use sua admirável capacidade de brincar com eufemismos, transforme essas rudes palavras em pensamentos efêmeros – Então eu ajudarei nesse desligamento, darei um ponto final nesse fascínio, me esforçarei para arrancar de minhas “trabalhadoras” o desejo de seguir, tocar, roubar e desenhar a áurea que lhe envolve. Sejamos sinceros - quão enfadonho é vestir a alma repetidas vezes; Quão vergonho é se ver nu, ser tocado nu, ser nu, ser no outro o apelo à nudez. Oh Caríssima, que abafado que se tornou essa Fabrica de Palavras, visualizo nesse instante, milhões de trabalhadoras correndo e se movendo sem rumo, eu sei o motivo – começo a arrancar delas a imagem da Interlocutora. Aqui de cima, as vejo em desespero, a visão que tenho é de que elas perderam o desejo de trabalhar, nunca mais se organizarão, nunca mais terão o nexo necessário para avançarem para fora dessas paredes, não deveria ser assim, porém, eu preciso que elas parem de se dirigirem a uma única senhora, preciso que elas obedeçam somente as minhas ordens, preciso que elas voltem a serem minhas. É sua culpa, senhora. Nunca paguei minhas trabalhadoras e nem as tratei com carinho, por isso, elas nunca vieram até mim com flores ou perfumes. Agora vejo nelas tanto desejo de te seguir que sinto ciúmes e inveja. Uma medíocre vaidade, eu sei - não é necessário jogar em face. O que arremeto com indignação é que agora eles sobem em cordas, se atiram em direção a IMAGEM retirada, gritam alto como se quisessem ir e não mais voltar. Que desejo mais sem pudor esse, não? As palavras jogadas e prostradas ante uma alma misteriosa – o meu ultimo conselho, Caríssima, afasta-se, afasta-se, antes que essas palavras lhe alcance, antes que novamente “elas” consigam arrancar as vestes – não poderia imaginar o que aconteceria, se lhe despindo, escondessem os panos que a cobrem. A sua nudez causaria nelas um fluxo de criação impossível de conter. Enfim, não posso perder minhas “pérolas trabalhadoras” e nem você, imagino, gostaria de ser tocada repetidas vezes e aclamada repetidas vezes por meras linhas mal escritas. Se esse texto não fosse um texto que não será escrito, eu lhe contaria como é o horror da percepção. Porém, quem gostaria de contemplar uma ferida aberta?
Que sensação lhe causam minhas letras?
Agosto de 2013

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