segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Carta póstuma de Elisa


“Em tuas cartas, que agora recordo com tão viva lembrança, me amavas tanto, me adoravas, me engrandecias. Vias em mim sensibilidades que eu mesma não suspeitava. E mais: induzias-me, quase me imploravas, para que eu fosse feliz, apesar da tua ausência.
Através da distancia me sublimavas.
Pelas cartas, o nosso amor era um tão grande amor!
- ...talvez, mesmo então, por minha natureza esquiva, eu não tivesse sabido me corresponder com expansivo amor ao amor que transbordava de tuas cartas, e também por isso eu me penitencio.
No entanto, eu te amava, e como!
E sempre me pedia que te escrevesse mais, queria saber das mínimas minúcias do meu cotidiano viver.
- ... é mais uma razão para a principio eu não ter entendido nem me conformado com o nosso gradual distanciamento mutuo quando retornaste da viagem, e em revide me haver retraído.”


Não tinha a intenção de escrever esse texto, principalmente porque mesmo antes de colocá-lo em linhas já o imaginei com ar de Crônica, gênero que me irrita deveras; sempre tão suave, tão transparente, me incomoda ser vista.
Contudo, por falta de subsidio poético, me obriguei a fazer esses insignificantes comentários a respeito das impressões que o texto acima me causou.
Laís, minha grande amiga, me presenteou com a biografia de Clarice Lispector, escrita por Benjamin Moser, o livro é todo sentimento, dor, sangue e alma de uma grande escritora. No entanto, lá pelas paginas 410 algo que não veio das mãos de Clarice (não diretamente) me paralisou – O texto acima é citado no Livro biográfico de Monser, trata-se de uma carta escrita pela irmã de Lispector, Elisa, em seu livro Corpo a Corpo. Benjamin Monser afirma que esse livro é um acerto de contas entre as irmãs, contudo, foi escrito pós-morte de Clarice e tinha como objetivo maior destacar a admiração e o amor que existiu entre as duas.
Porem, não foi só esse texto que me obrigou a escrever essas linhas insignificantes, na verdade já tinha até desistido de insistir com as palavras. No entanto, um querido amigo me deu o privilegio de ler uma carta intima que recebeu de seu grande amor, fiquei a flor da pele, com a licença que ele com certeza me daria (se eu pedisse), transcrevo um pequeno trecho: “Se nos encontrarmos em mil vidas, em apenas uma delas, por favor... segure a minha mão”.
Caramba! As pessoas deveriam saber que eu sou uma ferida aberta, li a carta de Elisa e parte da Carta do meu querido e me debulhei em lagrimas, logo, alguém tinha que pagar por tanta emoção.
Mas, eu não fiz esse rodeio todo para contar como sou sensível a histórias de amor.  O que me intrigou na carta de Elisa e também na do meu querido amigo foi o momento que elas foram escritas, cartas póstumas. Elisa escreveu uma carta belíssima para Clarice, mas, isso foi só para que “manteigas derretidas” como eu se deliciassem com um pouco de seu “mel”? Ou para amenizar a sua dor? Elisa amava profundamente sua irmã, mas só conseguiu expressar esse amor em uma carta pós-morte. Parece-me que os sentimentos mais profundos são guardados, fechados e muitas vezes impedidos de aflorar em nós, seres vaidosos.
Há tanta dor, arrependimento e reconhecimento nas palavras de Elisa que chega a ser torturante saber que Clarice nunca soube dessas palavras (é claro que exagero nessa colocação, não há como saber efetivamente se Elisa nunca declarou isso para Clarice).
Somos seres até que engraçados, deixamos que a morte nos prove um grande amor, deixamos um amor passar por medo ou vergonha da vulnerabilidade, odeio esse “tom” de palavras que irei usar agora, mas já que estou na “onda crônica” de um texto insignificante lá vai, - Ouse amar, ouse dizer que ama, ouse mostrar esse amor, ouse deixar ser amado, ouse escrever uma carta, que não seja póstuma!

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