“Não sei como agradecer sua amizade, Fernando” (Clarice
Lispector em carta escrita a Fernando Sabino)
O Livro, “Cartas perto do coração” é a reunião de algumas
cartas trocadas entre Fernando Sabino e Clarice Lispector no período que ela
morou na Europa e ele residia ora no Brasil, ora no EUA.
É necessário respirar um pouco antes de começar a falar
desse livro, na verdade, o livro não será o ponto principal desse texto, não
por falta de vontade e sim, por falta de capacidade. É claro que meu desejo
pueril era de tecer delongas significativas sobre essa obra, mas me falta
ambição e material para isso, quem sabe um dia o desejo se concretize. Portanto, pretendo
dar louvor as grandes sensações que podem ser vistas nele e alguns detalhes que
confirmam ainda mais a minha admiração pela amizade.
As cartas de Sabino para Clarice são quase sempre um exagero
de elogios, as palavras derramam volúpia, um desavisado poderia até imaginar
que não se tratava de amizade. Porém, era amizade, umas das mais belas que a
Literatura brasileira já presenciou.
Fernando não escondia nada de Clarice, colocava sua alma transparente,
suas linhas, seu rosto, tudo era exposto para Clarice, através de uma confiança
que ia alem do profissional. Era nítido o interesse do escritor na sabedoria
literária de Lispector, contudo, era ainda mais notável seu desejo de que ela o
visse como um artista, como aquele que sensibiliza, que expressa, que acolhe o
mundo e suas representações. Nada escapa dos olhos de Clarice, porque Fernando deixava
tudo à mostra.
Clarice, sendo a Clarice de sempre, era mais introspectiva
em suas cartas. Colocava-se sempre em segundo plano, delegando a sua escrita a
uma necessidade fisiológica de suportar o mundo. Não tinha sapiência no
existir, era pesado o dia a dia. Como reclamava para Fernando! No entanto,
nunca vi Clarice tão desnuda, tão fora de um personagem, sendo ela com suas
inseguranças. É notável que a amizade entres eles possibilitava a
liberdade de expressar o estranhamento e o constrangimento que a vida lhe
causava. Por outro lado, Lispector consegue demonstrar tanta ternura e carinho
por Sabino que é fácil identificar que a amizade se tornara algo
acalentador, tranquilizador e porque não, intermediador de uma vida mais
possível de viver. Reconheço que Clarice
via em Fernando uma identificação, não só pelo fato de serem escritores, mas
também porque ela conseguia alcançar nas palavras de Sabino uma lacuna que não
era preenchida por suas letras.
“É curioso como seu livro e o meu têm a mesma raiz. Só que o
meu termina com uma luz mais aberta – o encontro marcado se realiza... O fato
de você ter escrito esse livro e eu ter escrito o meu, não é começo da
maturidade?... Me de a certeza de um encontro marcado, e a esperança. ...Depois
desse livro, ainda sou mais sua amiga. Mas a verdade também é que, se não
tivesse gostado tanto, também seria. (8/01/1957)” Clarice para Fernando.
Invejo a amizade literária desses dois autores, era tamanha
a afinidade que eles permitiam critica mútua em diversos textos;
Fernando dava sugestões como troca de, adjetivos, conceitos e até mesmo frases inteiras. Porém, os
comentários eram sempre construtivos.
Contudo, o que mais me impressiona nesses diálogos por
cartas era a intimidade dos dois, as lembranças que sempre traziam fatos
comuns, lugares comuns e ideias comuns. Clarice e Fernando, contrariando a
noção de que amizade tem que ser sempre de “corpo presente”, mantinham ardendo à
chama da amizade, mesmo longe. Isso é notório nas despedidas das cartas, eles
sempre se despedem jurando amizade, deixando saudades e pedindo que a resposta da
carta não tardasse.
Clarice era grata, a ponto de não saber como agradecer. A
verdade é que a amizade também nos desperta essa sensação, entendo essa impotência
de Clarice, existem amigos que são sempre tão presentes (e uso esse termo no
sentido não somente da presença física, mas no conceito de ser sempre visto –
participar das situações, ruins ou não, estar perto, ser alcançável, aquele que não
precisa ser chamado, porque sempre está ao lado) que nos despertam um desejo de
retribuir, no entanto, parece que nada pode ser feito para compensar tamanho
comprometimento. Eu diria em uma linguagem mais vulgar que existem amigos que
são impagáveis.
Como se chama aquilo
que você sente quando olha para alguém e a admira não só pelo que ela faz, mas
também pelo o que ela é? Ou quando identifica que em outro ser também mora uma
força que é capaz de te acolher, em qualquer tempo, como se chama isso?Eu não
sei, mas há quem diga que a amizade é assim, e acontece.
“Clarice Lispector é uma coisa riscadinha sozinha num canto,
esperando, esperando” .`Fernando Sabino
P.S: Dedico essas linhas mal escritas a uma amiga que sempre
desperta em mim a sensação de gratidão, uma mulher acima da média, admirável e
incomparável. Não sei como agradecer sua amizade, Angelica Motta.
Verão de 2014.
G.K

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