quinta-feira, 20 de março de 2014

Adeus, meu pequeno mundo.

Ilustração de Karina M.

Aquele que conhece o profundo de minha alma sabe o quanto adiei o dia de escrever, no entanto, hoje me arrisco a caminhar nas palavras que saltam de um passado imerso (quase) no esquecimento.

Começo assim:
... entre, será a ultima vez que compartilharemos o nosso pequeno mundo...
Sente-se.
Quer um café? Não?
Um sorriso?
Um abraço?
Será o último.
Bom, nesse caso, vou prosseguir, não tenho muito tempo, nem para lembranças, que dirá para lamentos.

Sinto-me estranha, olho para você e só recolho folhas, como se viesse de um vendaval. Onde esteve?

Por favor, quero suprimir esse dialogo. Agora só eu falo.
Antes de tudo, recolha o que é seu nesse mundo. Não ... Não irá levar o que é meu, portanto, deixe meu café, meu sorriso e meu abraço.
Eu sei que pareço estranha, antes só existiam flores aqui, germinadas em terras férteis e sadias, agora tudo está empoeirado e podre. Faz muito tempo que não venho.
Estive há algum tempo e até pensei estar na sua presença, acordei absorvida pela sua imagem e corri , abri a porta, entrei e dormi em seus braços. Não era você, apenas lembranças boas de um amor inventado. Já nesse dia você estava longe.
Não há ninguém , você nunca esteve aqui, eu amava o inventado, então, para minha e sua surpresa, é a primeira vez que pisa seus pés nesse pequeno mundo.

Que lástima! Esse lugar era seu, já que não o conhece vou lhe contar para enfim chegarmos ao fim.

O amor é genioso, me fez construir um mundo ao seu redor, aqui eu morei e fui feliz, passava horas absorvida pelo veneno do amor, a poção da eternidade.
Aqui eu ergui torres, altares, escadas e mobílias, coloquei seu nome em cada porta – eu me esqueci de mim.

Você nunca esteve aqui.

Onde estava?

Eu a amei como não se deve amar, amei como se ama o infinito, o eterno, amei pecando, eternizando o efêmero.
Hoje eu vim só para fechar as portas e lhe dar a chave, nunca mais retornarei aqui, mas você poderá vir. Dentro daquele armário existe um estoque de palavras guardadas, são palavras repetidas, mas que foram escolhidas e ditas apenas para o meu amor. Abra quando tiver fome, coma dessas palavras, elas são suas, infelizmente a palavra dita não pode voltar, portanto, elas são suas, eu já as lancei. Na verdade, eu as entreguei em bandejas de ouro e como você as jogou no chão, recolhi e guardei aqui, sabia que um dia elas lhe fariam falta.

Suba as escadas.
Entre.
Nesse quarto está o mais importante, meus olhares e meu calor – enfim, aqui está o meu antigo querer. Olhe para ele se for capaz, era lindo, forte, um muro alto e quase inquebrável.
Ele morreu?
Sim.
Amores só duram quando existem, e o meu nunca existiu, era um sonho, ideal que criei.
Ele permaneceu vivido até descobrir que você nunca esteve aqui, nesse dia essa casa estremeceu e ele caiu de joelhos aos seus pés, olhou para seus olhos chorando e reclamou sua ausência pela ultima vez.
Lembra-se daquela saudade? Daquele medo que sempre reclamava em teus ouvidos, agora entendo, eu não sussurrava, era grito de desespero, apesar de tão perto o corpo, sua alma nunca visitou a casa do amor.

Como estou?
Feliz. Só voltei para lhe entregar as chaves.
Onde moro?
Não mais em uma casa.
Não?
Moro em uma alma. Encontrei alguém que não me deixou construir um lugar, ela disse: “eu sou o lugar, repouse em mim”.
Entrei.
Sentei.
Tomei um café.
Ganhei um abraço.
Um sorriso.
E fiquei.
Encontrei um amor que existe.

Falando nisso, ela me espera, não posso demorar... Aproveite essa casa e as lembranças, foi o que sobrou de mim para você.
Não vai levar nada?
Não, não preciso - tenho tudo e não há tempo, nem vontade de voltar, eu não quero mais ficar.
Seja feliz.
Desejo-lhe um café, um sorriso e um abraço, de outro alguém que nunca te amará como eu, ainda bem, amores assim não existem.

Adeus, meu pequeno mundo.


 Outono de 2014.

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