“Em tuas cartas, que agora recordo com tão viva
lembrança, me amavas tanto, me adoravas, me engrandecias. Vias em mim
sensibilidades que eu mesma não suspeitava. E mais: induzias-me, quase me
imploravas, para que eu fosse feliz, apesar da tua ausência.
Através da distancia me sublimavas.
Pelas cartas, o nosso amor era um tão grande amor!
- ...talvez, mesmo então, por minha natureza
esquiva, eu não tivesse sabido me corresponder com expansivo amor ao amor que
transbordava de tuas cartas, e também por isso eu me penitencio.
No entanto, eu te amava, e como!
E sempre me pedia que te escrevesse mais, queria
saber das mínimas minúcias do meu cotidiano viver.
- ... é mais uma razão para a principio eu não ter
entendido nem me conformado com o nosso gradual distanciamento mutuo quando
retornaste da viagem, e em revide me haver retraído.”
Não tinha a intenção de escrever esse texto,
principalmente porque mesmo antes de colocá-lo em linhas já o imaginei com ar
de Crônica, gênero que me irrita deveras; sempre tão suave, tão transparente, me
incomoda ser vista.
Contudo, por falta de subsidio poético, me obriguei
a fazer esses insignificantes comentários a respeito das impressões que o texto
acima me causou.
Laís, minha grande amiga, me presenteou com a
biografia de Clarice Lispector, escrita por Benjamin Moser, o livro é todo
sentimento, dor, sangue e alma de uma grande escritora. No entanto, lá pelas
paginas 410 algo que não veio das mãos de Clarice (não diretamente) me paralisou
– O texto acima é citado no Livro biográfico de Monser, trata-se de uma carta
escrita pela irmã de Lispector, Elisa, em seu livro Corpo a Corpo. Benjamin Monser afirma que esse livro é um acerto de
contas entre as irmãs, contudo, foi escrito pós-morte de Clarice e tinha como
objetivo maior destacar a admiração e o amor que existiu entre as duas.
Porem, não foi só esse texto que me obrigou a
escrever essas linhas insignificantes, na verdade já tinha até desistido de
insistir com as palavras. No entanto, um querido amigo me deu o privilegio de
ler uma carta intima que recebeu de seu grande amor, fiquei a flor da pele, com
a licença que ele com certeza me daria (se eu pedisse), transcrevo um pequeno
trecho: “Se nos encontrarmos em mil vidas, em apenas uma delas, por favor...
segure a minha mão”.
Caramba! As pessoas deveriam saber que eu sou uma
ferida aberta, li a carta de Elisa e parte da Carta do meu querido e me
debulhei em lagrimas, logo, alguém tinha que pagar por tanta emoção.
Mas, eu não fiz esse rodeio todo para contar como
sou sensível a histórias de amor. O que
me intrigou na carta de Elisa e também na do meu querido amigo foi o momento
que elas foram escritas, cartas póstumas. Elisa escreveu uma carta belíssima para
Clarice, mas, isso foi só para que “manteigas derretidas” como eu se
deliciassem com um pouco de seu “mel”? Ou para amenizar a sua dor? Elisa amava
profundamente sua irmã, mas só conseguiu expressar esse amor em uma carta
pós-morte. Parece-me que os sentimentos mais profundos são guardados, fechados
e muitas vezes impedidos de aflorar em nós, seres vaidosos.
Há tanta dor, arrependimento e reconhecimento nas
palavras de Elisa que chega a ser torturante saber que Clarice nunca soube
dessas palavras (é claro que exagero nessa colocação, não há como saber
efetivamente se Elisa nunca declarou isso para Clarice).
Somos seres até que engraçados, deixamos que a
morte nos prove um grande amor, deixamos um amor passar por medo ou vergonha da
vulnerabilidade, odeio esse “tom” de palavras que irei usar agora, mas já que
estou na “onda crônica” de um texto insignificante lá vai, - Ouse amar, ouse
dizer que ama, ouse mostrar esse amor, ouse deixar ser amado, ouse escrever uma
carta, que não seja póstuma!

Belíssimo post.
ResponderExcluirObrigada, Aguinaldo. Vindo de você, muito enobrece!
Excluir